Como um sonho acordado Como se a Terra corresse Inteirinha atrás de mim O medo ronda-me os sentidos Por baixo da minha pele Ao esgueirar-se viscoso Escorre pegajoso E sai Pelos meus poros Pelos meus ais Ele penetra-me nos ossos Ao derramar-se sedento Nas entranhas sinuosas Entre as vísceras mordendo Salta e espalha-se no ar Vai e volta Delirante Tão delirante É como um sonho acordado Esse vulto besuntado A revolver-se no lodo A deslizar de uma larva Emergindo lá do fundo Tenho medo ó medo Leva tudo é teu Mas deixa-me ir Arrasta-me à côncava da funda Do grande lago da noite Cruzando as grades de fogo Entre o Céu e o Inferno Até à boca escancarada Esfaimada Atrás de mim Atrás de mim É como um sonho acordado Esses olhos no escuro Das carpideiras viúvas Pelo pai assassinado Desventrado por seu filho Que possuiu lascivo A sua própria mãe E sua amante Meu amor quando eu morrer Ó linda Veste a mais garrida saia Se eu vou morrer no mar alto Ó linda E eu quero ver-te na praia Mas afasta-me essas vozes Linda Tens medo dos vivos E dos mortos decepados Pelos pés e pelas mãos E p'lo pescoço e pelos peitos Até ao fio do lombo Como te tremem as carnes Fernão Mendes Fausto, in "Por este rio acima" ----------------------------------------------------------------------- Texto inspirador "Embarcado num jurupango, com o Mouro Coja Ale, feitor do capitão de Malaca, fomos surgir no rio de Parlés no Reino de Quedá. Neste tempo, estava o rei celebrando com grande aparato e pompa fúnebre as exéquias da morte de seu pai, que ele matara às punhaladas para casar com sua mãe que já estava prenhe dele. Para evitar murmurações mandou lançar pregão que sob gravissimas mortes ninguém falasse no que já era feito. Mas Coja Ale era de sua natureza solto de língua e muito atrevido em falar o que lhe vinha à vontade. E foi assim que, preso por soldados, fui chamado ao rei e olhando para onde ele me acenava, vi jazer de bruços no chão muitos corpos mortos todos metidos num charco de sangue. Entre eles o mouro Coja Ale. Por mais de uma grande hora estive como pasmado, debaixo de abano, sem poder falar, arremessado aos pés do elefante em que el-rei estava. Depois de perdoado pelas lamentações e desculpas toscas, mas que vinham ao momento muito a propósito, me fiz à vela muito depressa pelo grande medo e risco da morte em que me vira." Fernão Mendes Pinto, in "Peregrinação" -----------------------------------------------------------------------